António Ramalho: “O negócio da banca é a compra e venda de confiança”

Para o CEO do Novo Banco, o modelo de negócio da banca tradicional assente na compra e venda de confiança e na proximidade está a ser desafiado pelas fintech.

As questões em cima da mesa na sessão da tarde do primeiro Congresso dos Gestores Portugueses organizado pelo Fórum de Administradores e Gestores de Empresas que aconteceu esta terça-feira na Culturgest em Lisboa foram estas: A tecnologia está à frente da regulação? Como é que a banca tradicional pode sobreviver num contexto das fintech, ou novas tecnologias financeiras? Lançou João Silvestre, jornalista do jornal Expresso, a António Ramalho, CEO do Novo Banco desde agosto de 2016 e responsável pela venda do “banco bom” do BES ao fundo Lone Star.

“Não sei se a banca tradicional quer sobreviver como banca tradicional”, respondeu o gestor, explicando que os modelos de negócio estão num processo disruptivo. “O negócio da banca é a compra e venda de confiança”. Os bancos, na sua opinião, protegem este modelo assente na confiança através da proximidade. Mas, continuou, “também é verdade que há elementos das estruturas diruptivas nesses instrumentos de confiança. A crise de 2008 é um exemplo.”

Ora, “isto não facilita a vida das fintech”, que não conseguem por essa via introduzir-se no modelo de confiança que estrutura a banca. O que hoje está em causa para o responsável são disrupções sobre o modelo de negócio. “É verdade que a proximidade é uma vantagem da qual partimos. Mas, reconhece, “estamos perante um desafio.”

Luís Pedro Duarte, vice-presidente da Accenture considera que não há um antagonismo entre as startups e as empresas tradicionais. “Vejo um stock cash disponível para financiar coisas que ainda não sabemos o que serão”, disse, considerando que muito têm a ganhar os setores tradicionais, que deixaram de estar protegidos, mas têm hoje novas oportunidades para se reinventarem.

“Queremos apenas que o Estado não atrapalhe as empresas”

Sem confiança no Estado, Jorge Santos, diretor geral da empresa de plásticos VIPEX, defende que os empresários não precisam de ajuda, apenas querem que o Estado não os atrapalhe. “Não temos confiança no Estado para nos ajudar.” Na sua opinião o próprio sistema de ensino não funciona e teme não estarmos a preparar os jovens para o futuro.

Para Nuno Fernandes, dean da Católica Business School, a excessiva enfase que tendemos a dar aos centros de decisão nacional é, em si, um problema pelo conflito de interesses que pode gerar entre os gestores e os acionistas.

“Existe uma empresa internacional em Portugal que, durante 10 anos, criou mais valor do que 40% do PSI 20”, disse, referindo-se à empresa alemã de montagem de automóveis, a Autoeuropa. Na sua opinião, a questão do capital é secundária; o problema principal é a falta de concorrência no setor privado e público.

Já que o Estado não tem concorrência, defende que pelo menos os serviços que presta sejam avaliados pelos clientes finais, os cidadãos.

Na Católica há 50% de alunos estrangeiros, que vêm estudar e gostariam de ficar em Portugal. Mas na generalidade dos casos, contou, não ficam por falta de oportunidades e de possibilidade de progredir na carreira. “Sem crescimento não há carreiras”, declara.

Marcelo Rebelo de Sousa: “O sucesso económico só vale a pena se se projetar na vida concreta dos portugueses”

O Presidente da República prometeu no primeiro Congresso dos Gestores Portugueses fazer tudo para que o processo político ajude à competitividade e ao crescimento e, portanto, ao sucesso económico.

Perante uma plateia de gestores, o Presidente da República afirmou que tem ouvido de empresários e gestores “perplexidades e desmotivações” com “sinais adversos ao investimento empresarial”, que no seu entender “tem sido o preço” da estabilidade da atual solução governativa.

Considerou que, no plano fiscal, se tem olhado menos para estímulos empresariais. Na sua opinião, “a estabilidade fiscal tem sido menos marcada porque tem conhecido passos favoráveis na reposição de rendimentos mais deprimidos ou sacrificados pela crise, mas olhado menos para estímulos empresariais”.

O chefe de Estado defendeu uma “reforçada aposta em exportações e investimento, que o mesmo é dizer produtividade e competitividade, que são condições básicas de crescimento, emprego e coesão social” e pediu que se evitem “aventuras em termos de compromissos plurianuais, projetados para além da legislatura”.

Numa intervenção de cerca de quinze minutos, o Presidente da República traçou objetivos para a economia e a sociedade portuguesa: “Garantir estabilidade política, social, laboral, fiscal, credibilidade das instituições, equilíbrio financeiro, criação de condições para crescimento e emprego e redução sustentada da dívida pública e privada externa, sempre preocupados com a competitividade, que não podemos comprometer ignorando o universo que nos rodeia”.

Considera que é preponderante o peso da realidade politica sobre a económica. “A realidade tende a ser a política a condicionar alguns passos da economia.” Prometeu fazer tudo para que o processo político ajude à competitividade e ao crescimento e, portanto, ao sucesso económico. Mas este sucesso, sublinhou, “só vale a pena se for social, se se projetar na vida concreta de todos os portugueses”, disse para concluir.

Marcelo Rebelo de Sousa fechou assim o evento, que contou com oradores convidados como Manuel Ferreira de Oliveira, ex-presidente executivo da Galp Energia, Esmeralda Dourado, administradora não-executiva da TAP, o economista Vítor Bento, José Manuel Fernandes, presidente da Frezite, Nuno Fernandes, dean da Católica Business School e, entre outros, Maria João Carioca do conselho de administração da Caixa Geral de Depósitos.

Mais de 600 gestores de vários setores estiveram reunidos para debater as mudanças na Gestão, a economia que realmente interessa, a responsabilidade social nas empresas e a ética na gestão em Portugal, cujo painel foi moderado pela diretora do Dinheiro Vivo, Rosália Amorim.

Imagens do 1.º Congresso dos Gestores Portugueses disponíveis em bit.ly/imagens-congresso

Notícia publicada no Dinheiro Vivo (ver aqui)

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